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Crítica à Faculdade de Salvar.
Henrique. Eu saúdo-te. Eu desejo-te saúde. Eu salvo-te. Eu já estou saudosa do tempo em que deixaremos de estar juntos, saudavelmente, salvos.
Salvar significa fazer o impossivel para o futuro. A poesia contém a faculdade de salvar. Um poema é a salvacão. Salva do imperfeito, do ruído (a poesia é canto!), salva (apanha, recolhe, fortalece) húmus. O poema salva o teu futuro, o teu mundo, os teus filhos. O poema é, em última instância, apenas tu.
Mas quando pretende salvar, põe-se de encontro a outrém. Esbarra, é certo, mas não pode ser marginalizado – é a outra margem, a outra possibilidade, o outro mundo (a tua quase carne, o teu filho.).
O poema torna-se no nós. Como quando te arrepias com a beleza ou crueza de algo que escapa à tua conceptualizacão. Torres a arderem, uma gaivota ferida, um plástico na praia. O teu poema repõe a beleza dessa ordem e quando salva, redime, transforma.
Tanja Nijmeijer é uma jovem holandesa, que andou por aqui onde eu ando, e juntou-se às FARC. Há pouco tempo, um diário dela foi descoberto e publicado num jornal. Ela desabafa a vida dura que leva, mostra as contradicoes entre o utopia e a guerrilha, e pensa em voltar. A vida dela corre perigo – dos dois lados. Voltando para um mundo que não é o dela ou ficando num mundo que ela não está a conseguir construir. Provavelmente já não terá escolha – mas temos nós escolha?
O poema é que nos vem salvar porque nos redime. Não aliena, mas serve de motus, é a infantaria da revolucão. Um poema que refizesse continuamente um mundo. Um mundo onde eu pudesse abrigar-me e ser abrigada no teu poema. Um cadáver vivo amando.
Um poema que dissesse morro, mas salvo-te. Espero pelas cinzas do teu cinzeiro.
www.antologiadoesquecimento.blogspot.com
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